“Memórias, Memore-as, Memorie-as…”
Por Ricardo Kuraoka Martins
“Para minha madrinha, que me apresentou aos livros; meus pais, que me colocaram nesse mundo; meus professores, que me alfabetizaram; Vanessa Bruno, que me ajudou a plantar girassóis; meus amigos e primos, que ajudaram a criar lembranças; meus inimigos, que ajudaram a criar meu caráter; os ônibus e metrôs, que me tomaram tempo e me obrigaram a pensar; Tiago Mine Vieira, que me encorajou; meus leitores assíduos descompromissados, que me incentivaram; Ivan Jaf, que me inspirou e minhas mãos, que não podem mover mundos, mas sempre fazem o possível para eu sentir que posso.”
O prefácio que quase não saiu ou
Antes que eu me esqueça
Durante muito tempo pensei em escrever minhas memórias. Uma vez quando era bem pequeno, não devia ter oito anos. A idéia entrou tão rápido quanto saiu. Não acho que tinha criado assim tantas lembranças que pudessem preencher um livro; Mais tarde, aos 14 anos, descobri a magnífica obra de Ivan Jaf “Manual de Sobrevivência Familiar”, decidi-me mais uma vez tentar e isso resultou nas primeiras doze páginas da história de minha vida, páginas que foram energicamente preenchidas no caderno de matemática entre uma aula e outra. Ao cabo do último ponto final do capítulo que destinaria a descrição da minha primeira desilusão amorosa, arranquei as folhas. Resolvi que deveria esperar um pouco para continuar, visto que talvez ainda fosse muito novo para discorrer sobre algo que pode tomar tantas formas através do tempo, e então as escondi. A verdade é que escondi tão bem que até hoje não lembro onde coloquei.
Então, por que esse texto? Por que agora? Uma razão bem simples até: Estou esquecendo. Nenhum de nós está ficando mais jovem, é claro, mas algo me faz pensar que se não colocar esse antigo projeto para frente agora, não poderei mais depois. Certamente que como escritor não confiável, sempre poderei inventar um ou dois acontecimentos para temperar um pouco a história, mas sinto que, da maneira em que ando esquecendo dos acontecimentos não conseguirei me aproximar ao menos da veracidade mínima exigida em um texto como esse. Talvez não seja o motivo mais nobre, mas é um motivo.
O livro em si, é muitas vezes uma crítica bem humorada que faço a mim mesmo. É um pouco da prova que tenho de que um dia existi, que conversei com pessoas, que tive idéias, que olhei pela fresta da porta e que passei o dedo na cobertura do bolo enquanto minha mãe não estava olhando. O livro é um pouco da aurora da minha vida, um tempo que pode parecer simples agora, mas que era cheio de grandes conquistas em pequenos passos. É também a tentativa de divertir os leitores com os acidentes de percurso da minha e, possivelmente, de suas vidas. Por fim, “Memórias, Memore-as, Memorie-as…” é o recipiente que encontrei para guardar minhas memórias, considerando que minha cabeça anda vazando nesse aspecto. Muita matemática acho.
Eu não sei por que, mas eu só lembro de uns poucos aspectos da minha vida. Acho que, a cada nova experiência, eu faço questão de esquecer alguma outra. Tenho medo de acabar esquecendo de algumas que considero importante, então sempre conto elas pra outras pessoas quando surge a oportunidade. Não com um blog, é claro, mas…